quarta-feira, 13 de julho de 2011

Second Post

Escrevi este em uma momento "deprê", mas acho apropriado já que conto com uma post do Edu sobre o assunto. E nem sei se podemos chamar de poema!

Espero que gostem!!


Reflexo

O meu espelho é a alma da sociedade, só sei o que sou quando vejo meu reflexo ativo na comunidade. Sei que meu feio é preso e isolado. O meu pobre é ignorado, a minha falha é a deficiência onde oras ganho o status quo ou o lixo. Sou um amontoado de inovações da antiguidade dos quais nada crio nada transformo só a natureza. A minha destruição é certeira! Minha justiça é cega para não ver a quem se fere e não ver a realidade. Tendo a espada para impor a lei mesmo que seja regada a sangue. Sou reflexo e espelho daquilo que digo que existe daquilo que dou como concreto a minha imaginação ou esquizofrenia social. Matrix é mais real que o nascimento de Jesus. O que ocorre, socorre o que acudiu. Sou espelho reflexo objeto.





Um comentário:

  1. RESÍDUO

    De tudo ficou um pouco
    Do meu medo. De teu asco.
    Dos gritos gagos. Da rosa
    ficou um pouco.

    Ficou um pouco de luz
    captada no chapéu.
    Nos olhos de rufião
    de ternura ficou um pouco
    (muito pouco).

    Pouco ficou deste pó
    de que teu branco sapato
    se cobriu. Ficaram poucas
    roupas, poucos véus rotos
    pouco, pouco, muito pouco.

    Mas de tudo fica um pouco.
    Da ponte bombardeada,
    de duas folhas de grama,

    do maço
    -vazio- de cigarros, ficou um pouco.

    Pois de tudo fica um pouco.
    Fica um pouco de teu queixo
    no queixo de tua filha.
    De teu áspero silêncio
    um pouco ficou, um pouco
    nos muros zangados,
    nas folhas, mudas, que sobem.

    Ficou um pouco de tudo
    no pires de porcelana,
    dragão partido, flor branca,
    ficou um pouco
    de ruga na vossa testa, retrato.

    Se de tudo fica um pouco,
    mas por que não ficaria
    um pouco de mim? no trem
    que leva ao norte, no barco,
    nos anúncios de jornal,

    um pouco de mim em Londres,
    um pouco de mim algures?
    na consoante?
    no poço?

    Um pouco fica oscilando
    na embocadura dos rios
    e os peixes não o evitam,
    um pouco: não está nos livros.

    De tudo fica um pouco.
    Não muito: de uma torneira
    pinga esta gota absurda,
    meio sal e meio álcool,
    salta esta perna de rã,
    este vidro de relógio
    partido em mil esperanças,
    este pescoço de cisne,
    este segredo infantil...

    De tudo fica um pouco:
    de mim; de ti; de Abelardo.
    Cabelo na minha manga,
    de tudo ficou um pouco;
    vento nas orelhas minhas,
    simplório arroto, gemido
    de víscera inconformada,
    e minúsculos artefatos:
    campânula, alvéolo, cápsula
    de revolver... de aspirina.
    De tudo ficou um pouco.

    E de tudo fica um pouco.
    Oh abre os vidros de loção

    e abafa
    o insuportável mau cheiro da memória.

    Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
    e sob as ondas ritmadas
    e sob as nuvens e os ventos
    e sob as pontes e sob os túneis
    e sob as labaredas e sob o sarcasmo

    e sob a gosma e sob o vômito
    e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
    e sob os espetáculos e sob a morte de escarlate
    e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
    e sob tu mesmo e teus pés já duros
    e sob os gonzos da família e da classe,
    fica sempre um pouco de tudo.

    Às vezes um botão. Às vezes um rato.

    Carlos Drummond de Andrade

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